Dengue: Transmissão, Sintomas, Classificação e Condutas Essenciais para Profissionais de Saúde

56 Dengue: Transmissão, Sintomas, Classificação e Condutas Essenciais para Profissionais de Saúde

Introdução: Um Vírus que Não Para de Crescer

A dengue é, hoje, a arbovirose de maior impacto em saúde pública no mundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 390 milhões de infecções ocorram anualmente em todo o globo — e o Brasil figura consistentemente entre os países com maior número de casos.

Apenas em 2024, o Brasil registrou mais de 6 milhões de casos e ultrapassou 6 mil mortes — números que revelam a dimensão do problema e a urgência de uma resposta qualificada por parte dos profissionais de saúde.

A dengue não escolhe idade, classe social ou região.

Ela avança silenciosamente, se esconde atrás de sintomas que se confundem com outras doenças e, quando não reconhecida e tratada corretamente, pode evoluir rapidamente para formas graves e fatais.

Por isso, dominar o conhecimento sobre essa doença — da transmissão ao manejo clínico — é uma das responsabilidades mais urgentes de quem atua na saúde.

O Agente Causador: o Vírus da Dengue

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A dengue é causada pelo vírus dengue (DENV) — um arbovírus da família Flaviviridae, gênero Flavivirus.

Existem quatro sorotipos distintos do vírus: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.

Essa divisão em sorotipos tem uma implicação clínica muito importante:

A infecção por um sorotipo confere imunidade permanente apenas contra aquele sorotipo específico — e imunidade temporária e parcial contra os demais.

Ou seja, uma pessoa pode contrair dengue até quatro vezes ao longo da vida — uma vez por cada sorotipo.

E mais: a infecção sequencial por sorotipos diferentes está associada a maior risco de desenvolvimento de dengue grave — por um mecanismo chamado de enhancing (amplificação dependente de anticorpos).

Transmissão: o Papel do Aedes aegypti

A dengue é transmitida pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti — o principal vetor no Brasil e nas Américas.

O Aedes albopictus também pode transmitir a doença, mas tem menor relevância epidemiológica no contexto brasileiro.

Como funciona o ciclo de transmissão:

  1. A fêmea do Aedes aegypti pica uma pessoa infectada e ingere o vírus junto com o sangue
  2. O vírus se replica no intestino do mosquito e migra para as glândulas salivares — processo que dura de 8 a 12 dias (período de incubação extrínseco)
  3. A partir daí, o mosquito está apto a transmitir o vírus a cada nova picada
  4. Ao picar uma pessoa saudável, o mosquito inocula o vírus pela saliva
  5. No organismo humano, o vírus se replica e os sintomas surgem após 4 a 10 dias (período de incubação intrínseco)

Características do Aedes aegypti:

  • Mosquito de hábitos diurnos — pica principalmente nas primeiras horas da manhã e no final da tarde
  • Vive e se reproduz em ambientes urbanos, próximo aos humanos
  • Deposita seus ovos em água parada e limpa — pneus, vasos de plantas, caixas d’água abertas, calhas entupidas e qualquer recipiente que acumule água
  • Os ovos são extremamente resistentes — podem sobreviver por até 450 dias fora da água, mesmo em condições adversas

A dengue NÃO é transmitida:

  • De pessoa para pessoa por contato direto
  • Pelo ar
  • Por água ou alimentos
  • Por objetos compartilhados

Fisiopatologia: O que Acontece no Organismo

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Após a inoculação pelo mosquito, o vírus da dengue infecta inicialmente as células dendríticas da pele e os macrófagos — que o transportam para os linfonodos regionais.

A partir daí, ocorre viremia — disseminação do vírus pela corrente sanguínea para vários órgãos.

O vírus infecta células do sistema mononuclear fagocitário, incluindo macrófagos do fígado, baço, pulmões e medula óssea — desencadeando uma resposta inflamatória intensa com liberação de citocinas.

Essa tempestade de citocinas é responsável pelos principais achados clínicos da dengue:

  • Febre alta — pela ação das citocinas pró-inflamatórias
  • Dor intensa — pela resposta inflamatória sistêmica
  • Trombocitopenia — pela supressão da medula óssea e destruição periférica de plaquetas
  • Aumento da permeabilidade vascular — o mecanismo central da dengue grave, que leva ao extravasamento de plasma para o terceiro espaço

Classificação Clínica da Dengue

O Ministério da Saúde do Brasil adota a classificação da OMS revisada em 2009, que divide a dengue em três categorias:

Dengue sem Sinais de Alarme

É a forma mais comum da doença.

O paciente apresenta febre de início súbito, geralmente entre 38,5°C e 40°C, com duração de 2 a 7 dias, acompanhada de pelo menos dois dos seguintes sintomas:

  • Cefaleia intensa
  • Dor retroorbitária (atrás dos olhos) — sinal bastante característico
  • Mialgia intensa (dor muscular)
  • Artralgia (dor nas articulações)
  • Exantema — erupção cutânea avermelhada, frequentemente com ilhas de pele sã
  • Náuseas e vômitos
  • Prostração intensa

Nessa fase, o paciente pode ser manejado ambulatorialmente — com hidratação oral, repouso e analgesia adequada.

Dengue com Sinais de Alarme

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Os sinais de alarme indicam o início do extravasamento plasmático — e representam um ponto crítico na evolução da doença.

Surgem geralmente entre o 3º e o 7º dia de doença — coincidindo com a defervescência (queda da febre) — quando muitos pacientes e familiares acreditam erroneamente que a melhora chegou.

Os sinais de alarme são:

  • Dor abdominal intensa e contínua ou dor à palpação do abdome
  • Vômitos persistentes — três ou mais episódios em 6 horas
  • Acúmulo de líquidos — ascite, derrame pleural ou pericárdico detectados clinicamente ou por imagem
  • Hipotensão postural ou lipotimia
  • Sangramento de mucosas — epistaxe, gengivorragia, hematúria, sangramento vaginal
  • Letargia ou irritabilidade — alteração do nível de consciência
  • Aumento progressivo do hematócrito — indicativo de hemoconcentração por extravasamento plasmático
  • Queda abrupta das plaquetas — abaixo de 100.000/mm³

O paciente com qualquer sinal de alarme deve ser encaminhado imediatamente para serviço de saúde com capacidade de monitorização e hidratação venosa.

Dengue Grave

É a forma mais crítica da doença — com alto risco de morte se não tratada corretamente.

Define-se pela presença de um ou mais dos seguintes critérios:

  • Choque por extravasamento plasmático grave — síndrome do choque da dengue
  • Sangramento grave — hematemese, melena, hematêmese, sangramento do SNC
  • Comprometimento grave de órgãos — hepatite grave (AST ou ALT > 1.000 UI/L), encefalite, miocardite, insuficiência renal aguda

O paciente com dengue grave necessita de internação em UTI e manejo intensivo imediato.

Diagnóstico: Clínico e Laboratorial

Diagnóstico Clínico

Na fase inicial — primeiros dias de doença — o diagnóstico é essencialmente clínico e epidemiológico.

A presença de febre aguda em região endêmica, associada à prostração intensa, dor retroorbitária e mialgia, já levanta fortemente a suspeita de dengue.

Exames Laboratoriais

Hemograma completo: é o exame mais importante no acompanhamento do paciente com dengue.

Os achados mais relevantes são:

  • Leucopenia — redução dos leucócitos, muito característica da dengue
  • Trombocitopenia — queda das plaquetas, que pode ser intensa nos casos graves
  • Aumento do hematócrito — indicativo de hemoconcentração por extravasamento plasmático

NS1 (antígeno não estrutural 1): detecta a proteína do vírus circulante no sangue. Positivo nos primeiros 5 dias da doença — fase virêmica.

Sorologia IgM e IgG: detectam anticorpos contra o vírus.

  • IgM: positivo a partir do 5º ao 6º dia — indica infecção recente
  • IgG: positivo em infecções secundárias — indica contato anterior com outro sorotipo

PCR (reação em cadeia da polimerase): detecta o RNA viral com alta sensibilidade e especificidade. Útil nos primeiros dias da doença e para identificação do sorotipo.

Tratamento: Hidratação é a Chave

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Não existe tratamento antiviral específico para a dengue.

O manejo é sintomático e de suporte — e a hidratação adequada é o pilar central do tratamento em todos os estágios da doença.

Dengue sem Sinais de Alarme — Manejo Ambulatorial

  • Hidratação oral abundante — mínimo de 5 mL/kg/hora
  • Repouso
  • Analgesia e antipiresia com paracetamol — primeira escolha
  • Evitar AINEs (ibuprofeno, diclofenaco) e ácido acetilsalicílico (AAS) — aumentam o risco de sangramento e podem precipitar síndrome de Reye em crianças
  • Orientação sobre sinais de alarme — o paciente e a família devem saber exatamente quando retornar ao serviço de saúde

Dengue com Sinais de Alarme — Internação e Hidratação Venosa

  • Acesso venoso imediato
  • Hidratação venosa com solução cristaloide (soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato)
  • Monitorização dos sinais vitais, diurese e hematócrito
  • Avaliação clínica frequente para detecção de piora

Dengue Grave — UTI

  • Reposição volêmica agressiva e monitorizada
  • Suporte hemodinâmico com drogas vasoativas se necessário
  • Transfusão de plaquetas — apenas em casos de sangramento ativo com plaquetas muito baixas (geralmente abaixo de 20.000/mm³) ou procedimentos invasivos
  • Suporte a órgãos acometidos — hepático, renal, neurológico

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Condutas de Enfermagem na Dengue

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O enfermeiro é peça fundamental no enfrentamento da dengue — na triagem, no monitoramento, na educação em saúde e no controle vetorial.

Triagem qualificada: na atenção primária, o enfermeiro deve ser capaz de identificar casos suspeitos, realizar a classificação de risco e encaminhar adequadamente os pacientes com sinais de alarme. Uma triagem bem feita salva vidas.

Monitorização rigorosa: em pacientes internados, monitorar sinais vitais, diurese, hematócrito e plaquetas em intervalos regulares. Qualquer piora deve ser comunicada imediatamente.

Hidratação supervisionada: garantir a hidratação adequada — oral ou venosa — e registrar o balanço hídrico com precisão são cuidados essenciais no manejo da dengue.

Atenção ao período de defervescência: o período de queda da febre (entre o 3º e o 7º dia) é o mais crítico. O paciente pode se sentir melhor — mas é exatamente aqui que os sinais de alarme costumam aparecer. O enfermeiro deve redobrar a vigilância nesse momento.

Orientação ao paciente e à família: explicar a classificação da doença, os sinais de alarme que exigem retorno imediato ao serviço de saúde e a importância da hidratação é uma das intervenções mais eficazes do enfermeiro no manejo ambulatorial.

Prevenção e controle vetorial: orientar a comunidade sobre a eliminação de criadouros do Aedes aegypti — água parada em vasos, pneus, calhas, caixas d’água sem tampa — é uma ação de saúde pública que o enfermeiro deve incorporar à sua prática cotidiana.

Notificação compulsória: a dengue é doença de notificação compulsória imediata no Brasil. Todo caso suspeito deve ser notificado no SINAN — contribuindo para a vigilância epidemiológica e para o planejamento das ações de controle.

Conclusão

A dengue é uma doença que o Brasil conhece bem — mas que ainda surpreende pela velocidade com que avança e pela gravidade que pode atingir quando não reconhecida a tempo.

O conhecimento técnico qualificado é a principal arma do profissional de saúde nessa batalha.

Saber identificar os sinais de alarme, classificar corretamente o caso, manejar a hidratação com precisão e orientar o paciente com clareza — cada uma dessas ações tem impacto direto no desfecho.

A dengue tem cura.

E o cuidado bem feito, no momento certo, é o que garante que o paciente chegue a essa cura com segurança.

Olá, eu sou o Rômulo, criador do Rômulo Enfermagem. Minha trajetória é construída no dia a dia da saúde: sou Técnico em Enfermagem especializado em UTI, Necropsista e Bombeiro Civil. Vivi a saúde em todas as suas etapas, desde o socorro de urgência até o cuidado crítico e o estudo pós-morte. Criei este espaço para compartilhar esse conhecimento de forma direta e prática, garantindo que o conteúdo tenha a base real de quem entende os desafios da nossa rotina hospitalar e de emergência.

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